Quando decidi escrever sobre maternidade, na forma pública de um blogue, foi sempre claro que seguiria o princípio ético do respeito pela privacidade dos meus filhos e demais familiares.

Sendo óbvio que, ao escrever um blogue pessoal, iria partilhar as minhas experiências e opiniões sobre a difícil tarefa de criar e educar crianças, sempre foi para mim também ponto assente de que jamais me tornaria naquele tipo de mommy blogger que se projeta através das fotos «fofinhas» dos seus filhos.

A tarefa de fazer crescer a página do facebook do Workin Mommin (WM) foi, assim, mais difícil. Acredito que se partilhasse fotos da Flor, linda e engraçadinha como é, mais projetaria o blogue. Mais seguidores atrairia. Mais me projetaria, a mim, como blogger. Mais marcas me contactariam para patrocínios ou ofertas…

Mas esse, na verdade, nunca foi o objetivo do WM. O propósito do blogue sempre foi expor, sem reservas, a complicação que é ter filhos e trabalhar ao mesmo tempo, fora de casa. Longe de casa. Desmistificar, no entanto, essa complicação, descomplicando-a, relativizando-a. Valorizando a mãe que trabalha (e atenção, trabalhar em casa também é trabalho… e árduo), que gosta da sua carreira, do que faz e que, ao mesmo tempo, consegue estar presente na vida dos seus filhos. Ajudando as mulheres que, como eu, têm de trabalhar para pagar as contas, a sentirem-se super-mães (porque é o que a maioria, de facto, é).

Consciente que, esse tema, não é o mais mediático dos temas, lá fui escrevendo e crescendo. Num ano, mais de 7000 mães e pais seguiram a página do blogue. Uma página em que não há fotos de bebés fofinhos.  Podiam ser muitos mais, bem sei, mas eu respeito a privacidade dos meus filhos.

Ética e… privacidade.

Os nossos filhos não nos «pertencem». São pessoas, indivíduos, com direitos para além a nossa vontade. Hoje, pequeninos, pousam para as câmaras sem reservas porque confiam totalmente em nós. Essas fotos são deles.

Mas há mães que as partilham com o mundo. O bebé no banho, o bebé à porta da escola, a menina com a farda do colégio, o menino no parque onde costuma ir diariamente…  Todo um quotidiano exposto, sem receios, sem qualquer respeito até pelos conselhos das autoridades deste país (recordo o alerta da PSP sobre este tema… podem lê-lo online em http://www.dn.pt/portugal/interior/alerta-psp-nao-quer-fotos-de-caras-de-criancas-nas-redes-sociais-4721021.html).

As crianças tornam-se verdadeiros superstars  e as mães ganham mais seguidores, mais notoriedade e … mais patrocínios.

Mas será isso ético? Correto? Terá uma mãe, ou um pai, o direito de expor, sem filtros, a imagem os seus filhos?

Porque condena um juiz um casal que publicava fotos da sua filha nas suas páginas de facebook (essas que têm definições de privacidade e que, na maior parte das vezes, até servem para que a família mais distante vá acompanhando o crescimento das crianças) e não se legisla sobre a blogosfera (um blogue pode ser lido e visto por toda a gente)?

Não vou tão longe a ponto de afirmar que existe na atividade das minhas colegas algo de exploração infantil. A maior parte delas apenas o faz por entretenimento, sem pensar muito sobre o assunto. Outras não se importam. Algumas pela exposição e pelos patrocínios. Outras (poucas), vivem disso.

Sou apenas uma mãe que não é a favor da sobreexposição das crianças.

Porque, para além dos riscos óbvios, um dia elas crescem e deixam de querer ser fotografadas. Deixam de gostar de saber que toda a gente lhes conheceu as birras dos 2 anos (em fotos e vídeos, com ranhoca e tudo) ou a quantidade de piolhos que foram tendo ao longo da idade escolar. Ou pior, de gostar que as pessoas as vejam pelos olhos das suas mães. Ou então, outras, crescem com uma ideia de estrelato que a vida pode não continuar a proporcionar.

Porque estou a criar indivíduos com identidade própria, apenas partilho nas redes sociais (raras) imagens que eles também partilham (dos já crescidos que já têm as suas páginas no facebook, um deles até como atleta) em momentos muito especiais e sem que os seus rostos ou identidade estejam totalmente expostos.

Um dia eles terão oportunidade de construir a sua própria imagem publicamente, se assim o desejarem. À sua verdadeira imagem e semelhança, como deve ser.

Até lá, conto com todos aqueles que apenas gostem de me ler pelo que escrevo.

Liliana Cachim

Liliana Cachim

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