Eu, mãe, me confesso.

Pecado número 1:
Confesso que tenho a casa “explodida” vezes demais. Por “explodida” entenda-se como que se uma bomba de confeitos tivesse explodido em minha casa. Tudo espalhado. Brinquedos aqui, brinquedos ali, um sapato de bebé no chão da sala de jantar, uma fralda com xixi que não levei logo para o lixo e que teima em manter-se sobre o braço do sofá, lápis de cor embrenhados no tapete de pêlo alto… O caos.
E confesso que, muitas vezes, ignoro esse caos. Piso os lápis de cor, ignoro a fralda suja, deixo o sapato no chão. Por pura inércia. Não que não queira arrumar, nem ter tudo arrumadinho como dantes. Quero. Todos os dias protesto, umas vezes alto para TODA A GENTE OUVIR, outras vezes baixinho, só para mim… Mas simplesmente porque penso, “tu já estás exausta, ao menos quando arrumares, arrumas tudo de uma vez”.
Confesso que aquela coisa do “manter a casa arrumada” é, para mim e todos os dias desde o nascimento da Flor (ou seja, há 17 meses), um mito. Um TREMENDO mito. Eu bem arrumo. Eu limpo imenso. (Pareço a formiguinha, sempre a fazer coisas cá em casa.) Até que vem a Flor e despeja o cesto dos brinquedos na cozinha, ou vem o Luís e deixa as caneleiras do futebol na casa de banho. E isso acontece num dia em que eu não me apetece arrumar nem dar sermões. Porque estou cansada. O cérebro como que congelado. E o caos vai ganhando terreno. Esse idiota vencedor…
Confesso que os miúdos fazem a parte deles, cá em casa. Se o meu cérebro congela, o deles também pode congelar, logo também não ando a exigir deles o que eu não faço. Sou a favor do exemplo. E, neste caso, sou um péssimo exemplo.
E para finalizar o pecado, confesso que, uma vez por semana, há um coronel que se apodera de mim. Tudo em sentido, eu aos berros um bocadinho histérica (ok, muito histérica), lixívia como a minha principal aliada, miúdos de pano do pó na mão, aspirador a rugir tipo tanque de guerra e pronto. Fica tudo limpo e arrumado. Durante umas horas. Porque o caos, esse idiota vencedor, nem dorme, nem anda cansado.

Pecado número 2:
Confesso que às vezes não lavo os dentes antes de ir para a cama.
Se a penitência for menor, deixem-me justificar este enorme pecado. Tentar justificar, pelo menos. É que eu tenho um bebé.

Para quem não tem um bebé, eu explico. Ter um bebé faz com que mulheres outrora giras, cheirosas, de cabelos impecavelmente penteados e roupas imaculadas, se transformem em “meninas da Ribeira do Sado” ( pesquisem a música no YouTube). Os cabelos ganham raízes escuras até aos ombros e normalmente andam atados em carrapitos mal-amanhados. As roupas passam a ter nódoas de leite bolsado. O perfume, que é demasiado forte para o bebé, evita-se. E os dentes só se lavam no duche de manhã e quando é o marido a adormecer o bebé, à noite. Caso contrário, ficam por lavar.
Ok, se não estiverem satisfeitos e continuarem a achar que não há desculpa para não lavar os dentes antes de ir dormir… Eu tenho quatro filhos. Qua-tro. Há mães que perdem o juízo só com um. Imaginem a quantidade de coisas que tenho na cabeça. Os medos, as preocupações. Os horários escolares, nomes dos amigos e professores. Horas dos remédios quando estão doentes. Ah… E esperem. Imaginem agora a quantidade de roupa e eu tenho de lavar e passar e arrumar. 

Às vezes tenho preguiça de lavar os dentes ou esqueço-me. 

Claro que as mães perfeitas vão ficar horrorizadas quando lerem isto. Porque são perfeitas e têm bebés perfeitos, que não dão trabalhinho nenhum. O que me leva ao…

Pecado número 3:
Confesso que não entendo como há mães que são perfeitas.
É que eu tento imenso, mas mesmo imenso, ser melhor mãe, todos os dias, mas não consigo.
E depois, porque não consigo, fico a dizer mal dessas super-mães que têm blogues todos activos, filhotes sempre impecavelmente vestidos, casas perfeitamente arrumadas. Digo “bué” mal delas. Por pura inveja. 
Porque de certeza que elas não se iriam esquecer de levar a “neve” para a festinha de Natal dos seus filhos. Sobretudo depois de terem tido uma enorme trabalheira a ir comprar o papel prateado, a cortá-lo em tiras e depois aos quadradinhos… Elas nunca se esquecem de nada.
Porque ESSAS PERFEITAS lavam os dentes SEMPRE antes de dormir, após terem retirarado a maquilhagem e colocado creme no rosto e no corpo, com o bebé já adormecido no seu próprio quarto e na sua própria cama.
Pfff… Perfeitas! (Quero a vossa empregada e/ ou a vossa fortuna de família.)

Pecados número 4 e 5 e 6 e 7:
Confesso que às vezes demoro um bocadinho mais na rua para não ir logo para casa. E que finjo estar muito maaaaaalllll da barriga para me fechar na casa de banho só a ver o facebook.
E que, quando os miúdos falam, às vezes abstraio-me, não ouço nada mas digo “ahn ahn” na mesma.
E que faço de conta que estou a dormir profundamente quando o Bruno vem para a cama. (Hehehe… Corei.)

Pecado número 8:
E agora, ao invés de cumprir as penitências, confesso que vou dormir, hoje de dentes lavados mas de rímel nos olhos,  porque tenho preguiça de me levantar, está frio e as pestanas não caem… com a Flor atravessada na minha cama porque gosto de dormir com ela… e com um certo sentimento de culpa, pois o iPad está com 4% de bateria e já não vai ser hoje que vou publicar este texto no blogue.

Não tenho salvação.

Liliana Cachim

1 Comment on Eu, mãe, confesso-me muito pecadora.

  1. Elsa Valverde
    Dezembro 20, 2016 at 6:11 pm (11 meses ago)

    Como eu a conpreendo e só tenho 2 filhas!

    Responder

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Comment *