Nota prévia – Há cerca de um mês e meio, lancei um desafio na página de Facebook do WorkinMommin. O objetivo era recolher testemunhos de mães reais sobre a forma como as empresas as trataram (ou tratam) perante situações como gravidez ou maternidade. Muitas foram as participações e testemunhos.

A LEGISLAÇÃO

A legislação em Portugal é clara no sentido da proteção da maternidade e prevê muitas situações, desde:

  • Proteção de dados pessoais (nomeadamente em candidaturas de emprego e enquanto empregadas)
  • Proteção na gravidez
  • Direito a licenças e dispensas específicas (gravidez, maternidade, aleitação, saúde e apoio a menores…)

Sugiro que consultem os seguintes links para maiores detalhes sobre a legislação em vigor:

http://www.cite.gov.pt/pt/legis/CodTrab_L1_002.html

http://www.ilo.org/public/portugue/region/eurpro/lisbon/pdf/nota_4.pdf

http://www.cite.gov.pt/pt/acite/protecparent.html

Portanto, a legislação existe, está em vigor e todos têm acesso a essa informação.

MENTALIDADE SOCIAL

Acontece, no entanto, que existe no nosso país todo um histórico de «adaptabilidade» da legislação aos «superiores» interesses de alguns empregadores. Em variadas temáticas e sempre a favor do empregador (ou quase sempre, salvaguardo desde já as devidas exceções, empresas que respeitam a lei e apoiam a maternidade).

No caso da maternidade e parentalidade, então, afirmo sem qualquer pudor, existe também uma espécie de «proteção social» do empregador (no sentido em que a sociedade machista – mesmo que feminina – a defende). Quando me refiro à sociedade machista, refiro-me a TODAS as pessoas que dizem- homem ou mulher- em jeito de crítica, coisas como «gravidez não é doença» mesmo quando a mãe se encontra numa situação de gravidez de risco clínico comprovado por um médico (!) ou a todas aquelas que acham que ter a licença de maternidade equivale a um «período extra de férias» e que isso do «pai também faltar ao emprego, porque teve um bebé, é coisa de quem não gosta de trabalhar».

Muitas vezes, quem pensa assim é patrão ou, pior, um chefe desejoso de provar o quanto se «preocupa» com a empresa (i.e. com a sua carreira e o seu ordenado ao final do mês). A verdade é que falamos sempre de PESSOAS e as pessoas têm maior ou menor sensibilidade e visão, consoante o seu percurso pessoal e os pais que os educaram…

Sou acérrima defensora dos direitos das pessoas na maternidade e parentalidade. Comentadora ativa e atenta nas redes sociais dos media portugueses. E choco-me com a quantidade de mulheres que critica, por exemplo, o direito à licença de maternidade. Muitas comentam barbaridades como «eu fui trabalhar o meu filho ainda nem um mês tinha» como se isso fosse um grande feito, motivo de orgulho pessoal, quando, na verdade, não passa de uma situação triste, imposta por uma mentalidade social pequenina. Ou então e pior… por uma obrigação. Quando digo pior, digo-o porque, nesse caso, essa mãe e o seu bebé não foram devidamente protegidos.

Portanto, é neste cenário social, de mentalidades mal-(in)formadas, que nos encaixo. E que, sem surpresa mas com bastante tristeza, partilho testemunhos reais de mães que experienciaram situações que representam o país em que vivemos e a sua mentalidade social.  Ressalvo que todos os nomes das mulheres e dos bebés que participaram nesta matéria foram alterados. Obviamente, para evitar retaliações, também não serão mencionados os nomes das empresas…

O CASO DA M. – SUBSTITUIÇÃO ILEGAL

A M. começa o seu testemunho com a seguinte frase : «A minha história não é uma história feliz.» Na entrevista que lhe concedeu um emprego de sonho na sua área de formação, estranhou o facto de lhe perguntarem se tencionava ter filhos. Respondeu que não, na altura com 27 anos nem pensava nisso! No seu testemunho não se mede em elogios ao trabalho que adorava desempenhar. Nunca cumpriu horários, dando sempre mais do que lhe era exigido. Chegava a sair da empresa às 11 da noite… O resto desta história vai ser agora contada, em bom português e na primeira pessoa… Passo, então, a palavra à M.:

«Adorava aquilo que fazia. Fiz de tudo, dei tudo, fiz amigos para a vida. Foi lá que comecei a desconfiar que estaria gravida! Tinha 32 anos e já algum tempo que a vontade de ser mãe era imensa!

Quando dei a notícia a quem reportava diretamente ouvi um “hummm…por isso é que eu sempre digo, as mulheres nunca deviam trabalhar na cerâmica” Fenomenal heim…?! Adorei ouvir aquilo, apeteceu-me… grrrrr!!

Continuei naturalmente o meu percurso, nunca abrandei por estar grávida, até que aos 7 meses, por ordem médica tive de parar. Conduzia muito, viajava muito, e do esforço, a minha anca desnivelou o que me causava dores enormes.

Fiquei de baixa por gravidez de risco. Mal soube o que se iria passar, tratei de arranjar alguém que me ficasse a substituir. Era uma época de feiras internacionais e eu estava muito preocupada. Ainda fui trabalhar uns dias durante a baixa, para garantir que tudo ficava ordenado. Deixei o meu gabinete, o meu computador, o meu telemóvel, tudo entregue para mais uma vez garantir que tudo iria correr bem. Fiquei uns dias a trabalhar à distância com as minhas ferramentas pessoais.

Quando regressei de licença de maternidade, fui recebida com alguma frieza, mas não liguei… Talvez estivessem preocupados com alguma coisa. Tinha havido modificações de gabinetes, eu ainda não tinha um para mim. Também não tinha computador e não havia maneira de me devolverem o telemóvel… A pessoa que me tinha ficado a substituir fugia de mim a sete pés e tinha para comigo uma posição altiva, de desprezo.

Deram-me tarefas ridículas, que fiz sem contestar mas que obviamente era para me aborrecer. Aos poucos fui-me apercebendo que aquilo não era uma situação normal e percebi também que estariam a fazer com que eu me chegasse à frente para abandonar o barco.

A pressão foi horrível. Na altura eu estava sozinha com o meu filho de 5 meses. O meu marido estava fora, do outro lado do mundo. Ainda por cima! Falamos muito acerca do que se passava.

Até que um dia fui pedir explicações. Ao que me foi respondido que para todos os efeitos eu tinha passado a um estado de indisponibilidade. Whattt!? Sim, para ele eu como tinha um filho, já não podia estar a desempenhar funções. Porque tinha um filho.

Não me podiam despedir porque estava ainda no período de redução de horário. Caso eu não fosse falar com eles, durante 6 meses, a minha vida iria ser um inferno. Chegámos a acordo e vim imediatamente para casa. Tratei tudo com os RH, até me vir embora nunca mais ninguém me dirigiu palavra. Todos os meus colegas ficaram do meu lado! Até hoje.

Até hoje ainda não consegui arranjar emprego. Até hoje não lhes perdoo.»

O CASO DA N. – GRÁVIDA E INTOXICADA COM AMONÍACO

A história na N. diz tanto sobre tanta coisa, que me vou abstrair de contextualizar e passar a transcrever as suas palavras:

«Comecei a trabalhar numa pequena empresa de transformação de pescado, passado um mês engravidei, não foi intencional, apanhei uma infeção urinária e a medicação alterou o efeito da pílula. 2 meses depois de ter começado a trabalhar descobri que estava grávida. Informei a entidade patronal e como a minha chefe é mãe de 4 filhos aceitou perfeitamente, alterou algumas das minhas funções que não eram compatíveis (contacto com produtos químicos, controlo de pragas, gestão de produto não conforme e evitou sempre que fosse eu a ir às câmaras de congelação) e facultou-me algum trabalho de gabinete. Contudo a minha chefe foi transferida e o seu substituto (um menino mimado, sobrinho da esposa do administrador, que em toda a sua arrogância não entendia as limitações de uma gravidez) exigiu que eu voltasse para as minhas funções iniciais, e eu voltei, até ao dia em que desmaiei durante uma fuga de amoníaco na antecâmara, com 26 semanas e tive de ser socorrida. Não podia continuar a sujeitar o meu filho a estas situações. Falei diretamente com a administração e foi-me aconselhado pedir baixa (o senhor não queria problemas em casa por repreender o sobrinho da esposa). Assim o fiz. Mas como o sangue fala mais alto, às 32 semanas recebi uma carta de despedimento, contudo não era legal que o fizessem, foi uma luta para que conseguisse resolver tudo, incluindo várias deslocações à empresa e discussões acesas com o sobrinho querido. Consegui continuar na empresa. Tive o meu filho a uma quarta feira, na segunda a seguir recebo uma carta a informar que a empresa iria cessar atividade. O administrador adoeceu e o sobrinho tomou o seu lugar, eu, mais raparigas do escritório que estavam com redução de horário por amamentarem, o estafeta que estava de baixa por acidente de trabalho e alguns colaboradores das linhas de produção viemos embora. A empresa não cessou atividade na prática, apenas “mudou de nome”, fechou uma e abriu outra com a mesma morada, os mesmos funcionários, etc …mas com uma denominação fiscal diferente. E cá estou eu, com um belo rapagão saudável e perfeito nos braços, mês e meio e 6 kg de puro amor. Em Dezembro vou para o desemprego. Mais tarde vou pensar nisso. Mais tarde ficarei ansiosa e perturbada. Mais tarde ficarei sem sono. Mas agora, com o meu filho já em casa (porque esteve internado na UCIN) quero aproveitar todos os segundos a três e todos os dias agradeço pelo filho que tenho e pelo marido que me acompanha. Gostava de lhe feito um relato feliz…»

(Também eu, N., também eu…)

O CASO A. – O «ESPECIALISTA» EM AMAMENTAÇÃO

Numa altura em que a Organização Mundial de Saúde promove a amamentação em exclusivo até aos 6 meses e a educação para o aleitamento materno alargado, esta é a realidade de muitas mães portuguesas que lutam pelo seu direito à amamentação e à manutenção da sua carreira profissional.

Sem dúvida, um relato com que muitas mães se identificarão…

«Sou controladora de qualidade numa fábrica de plásticos e trabalhava por turnos. Quando regressei ao trabalho, após 6 meses (5 de licença e 1 de férias)  pedi dispensa do trabalho noturno. O meu patrão disse me logo que tinha de escolher entre isso e as duas horas de amamentação, que as duas coisas não podia ter. Disse lhe que não tinha de escolher, porque tenho direito às duas coisas uma vez que estou a amamentar. Disse me que tinha que ver isso com o advogado.

Perguntou-me até quando era essa situação, respondi-lhe que queria amamentar até a minha filha ter 1 ano. Disse-me ” Isso é ridículo! Amamenta-se até aos 3 meses e já é bom.” E ainda continuou com ameaças. ” Pessoas que usam isso como desculpa para trabalhar menos ficam mal vistas aqui na empresa.”Lá aceitou dar-me a dispensa, mas ao final de duas semanas perguntou-me se ainda ia continuar assim, porque se assim fosse tinha de ver a minha continuação na empresa.

Sofri muito os dois primeiros meses para amamentar, mas nunca desisti pela minha filha. Agora vejo-me numa situação complicada. Quero muito amamentar até ela ter 1 ano, mas devido a um patrão insensível, que nunca teve filhos e dá palpites sobre a amamentação vai ser difícil, mas não vou desistir nunca.

Informei-me na ACT e a legislação apoia-me. Por isso vou lutar pelos meus direitos e amamentar a minha filha o máximo tempo possível.»

O CASO DRAMÁTICO DA A2. – «LICENÇA? MAS O SEU BEBÉ MORREU!!!»

Porque os chefes são pessoas e as pessoas agem de acordo com o seu nível de formação moral e consoante o nível do seu Quociente Emocional, deixo-vos o caso dramático de uma mãe coragem que sofreu a morte de um bebé e a insensibilidade de quem era suposto entender…

«Sou do Porto, sou médica, após 6 anos de curso, mas continuo a estudar para ser especialista ao mesmo tempo que trabalho (4 anos). Em 2013 comecei a especialidade e soube que estava grávida. Quis o destino que a minha pequena bebé tivesse uma restrição de crescimento e eu uma pré-eclampsia. A pequena tinha a DPP de 20 de Setembro, e em 28 de Maio fiquei internada. Ela nasceu a 20 de Junho, e acabou por falecer a 26. Quando falei com a entidade patronal, perguntaram qd voltaria a trabalhar, se a 20 de julho… eu disse que não, que iria usufruir da minha licença de maternidade, e perguntaram “licença? mas a bebé morreu, precisa de licença para quê?”. E foi isso…usufruí e não tive qualquer represália, mas o comentário doeu… Em Setembro de 2015 soube da nova gravidez do meu menino, e visto que tinha descoberto uma doença minha que explicava a história da gravidez da minha filha, iria ter que fazer medicação antiagregante plaquetar, injecções de anticoagulante e repouso desde o final do 1º trimestre, até ao final da gravidez. Consegui “esticar” o repouso só a partir das 20 semanas, pois tudo foi correndo bem (ou melhor que a anterior, pelo menos!). Não houve qualquer problema com a gravidez de risco. O bebé nasceu, pedi 150 dias de licença de maternidade e também não houve qualquer problema. Quando voltei, fui “aconselhada” a não usufruir da redução de horário por amamentação…e ouvi um “agora só tem outro bebé no fim da especialidade, senão isto dá muito trabalho estar sempre a reorganizar tudo!”. Entretanto não usufruí, de facto, da licença, e continuo a amamentar.»

Tenho muitos mais testemunhos para partilhar. Tantos que vou transformar este tema num permanente, aqui no Workin Mommin.

É preciso dar voz a estas mulheres até que elas deixem de testemunhar de forma anónima, por medo de represálias.

Existe, em Portugal, um país que quer ser (e que se legisla) e um país que não é, nem de perto nem de longe, o que quer ser (e que permite que a lei sofra «interpretações»).

Obrigada por terem lido. Conto convosco para fazer GRITAR BEM ALTO estes testemunhos, através da vossa partilha. Quantas mais pessoas lerem, mais pessoas serão tocadas por estas histórias reais.

Um movimento social começa quando as pessoas se unem em torno de uma causa comum e agem.

Um beijinho.

Liliana Cachim

2 Comments on Testemunhos reais- A maternidade e a empresa

  1. Liliana Cachim
    Novembro 3, 2016 at 1:07 pm (1 ano ago)

    Obrigada pela partilha. Todos os blogues que toquem o tema ajudam a alertar para esta terrível questão! Beijinhos.

    Responder

1Pingbacks & Trackbacks on Testemunhos reais- A maternidade e a empresa

  1. […] Aqui estão vários testemunhos de mães que foram penalizadas só por serem mães… É tão triste!! Eu sofri na pele… Um projecto super desgastante, dois abortos espontâneos pelo caminho (não só do stress, mas possivelmente também relacionados com a doença endometriose que eu tenho) e uma baixa por gravidez de risco imediatamente acompanhada por uma não renovação de contracto… O medo de me enervar e perder mais aquele bebé, o stress de ficar sem trabalho e as palavras… “Vai descansar e que corra tudo bem, e depois com dois filhos não vai dar jeito que trabalhes aqui, não … Ver artigo completo no Blog […]

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