Há hotéis em Portugal que, como estratégia comercial, não aceitam crianças. São hotéis só para adultos, que têm como objectivo atrair “um certo tipo de público” que pretende usufruir de umas férias mais “relaxantes” e “com mais paz e sossego”.(As aspas indicam, claro está, que as palavras não são minhas. Retirei as expressões de um artigo publicado pela TVI 24 e que podem ler na íntegra aqui: http://goo.gl/96QNHx )
Este tipo de hotéis já existe em vários países, com muito sucesso. Os clientes que estas unidades hoteleiras atraem são, sobretudo, casais de meia idade, dizem as estatísticas. (E eu acredito. Não é fácil duvidar que haja pessoas que já criaram filhos e actualmente criam netos e que, nas férias, não estejam para aturar os filhos dos outros).

Em Portugal, questiona-se agora a legitimidade deste tipo de opções comerciais por parte de empreendimentos turísticos (que, segundo defende a lei, devem respeitar a política de livre acesso). E, um pouco por todo o lado lêem-se e escutam-se as opiniões populares.

Felizmente vivemos neste país. Onde as opiniões das pessoas são mais livres do que, na prática, o acesso a alguns hotéis. Um país que, com tantos constrangimentos políticos e económicos, é ainda um país verdadeiramente democrático. Por muito que se questione a moralidade (ou a falsa moralidade, nalguns casos), é sempre possível manifestar a nossa opinião em relação a qualquer tema da actualidade. E é esse direito que vou exercer agora- o de opinar sobre estas políticas comerciais de alguns estabelecimentos hoteleiros. Na minha opinião:

– De um ponto de vista emocional, estas medidas (que foram decididas por uma pessoa e são defendidas por tantas outras) demonstram que o ser humano está cada vez mais longe da sua humanidade. Está cada vez mais egoísta. As pessoas não gostam de pessoas. Não gostam de crianças porque choram e riem alto, correm e gritam. Não gostam de idosos porque precisam de cuidados e atenção e também porque, com as suas peles enrugadas, são visualmente incomodativos e uma lembrança constante do que o futuro nos reserva. Não gostam de pessoas de outras classes sociais (se superior- que inveja; se inferior- que horror), de outras etnias (ciganos na mesma piscina?! Impensável!) e de outras religiões (mulheres de burka ao meu lado no combóio?- que medo!). E isso contraria algumas das mais básicas noções que eu tenho da humanidade- a de que temos de viver em comunidade. Depois, que temos de aceitar a diversidade humana e as particularidades do outro. E, finalmente, que temos de gostar de pessoas para conseguir viver em paz.

– Pessoalmente, a mim não me incomoda estar num sítio com crianças barulhentas. Estranharia, talvez, se estivesse num sítio sem crianças ou, pior, num sítio onde elas estivessem em silêncio. Eu controlo a minha mente. Posso estar numa sala cheia de barulho que sei desligar “os ouvidos”. Sei programar-me para não me deixar incomodar. Por isso, não entendo as pessoas a quem as correrias das crianças incomodam. Parece-me sempre que esse tipo de pessoas são os mesmos que sacodem violentamente os bebés que choram ou que batem nas crianças por rirem alto. São os stressados, os incomodados… Para eles, uma palavra- Mindfulness. Googlem.

– Economicamente, parece-me claro, estamos a falar de um nicho de mercado que está disposto a pagar mais por “um momento de sossego”. No entanto, não me parece que o simples facto de se excluírem crianças seja factor de rentabilidade extra. Olhando o meu caso pessoal, quando viajo preciso de, no mínimo 2 quartos. Ou do apartamento maior da unidade. E pago bem mais pelo consumo do que pagaria se estivesse apenas em casal. Um nicho é um nicho. E o problema dos nichos de mercado é que se afastam das massas. Especializam-se, está claro, mas também se podem esgotar.

– Do ponto de vista estratégico, um hotel que agora não aceite crianças, está a afastar-se de uma das fortes tendências do consumo associada à geração “millenials” (1975-1995). A geração dos “valores”, como é commumente descrita, privilegia um estilo de vida saudável, momentos vividos em pleno entre amigos e em família. Ou seja, daqui a 10 anos estes “millenials” terão 50 anos. Elegerão eles hotéis sem crianças? Ou privilegiarão espaços orientados para a família, para o convívio com a natureza, unidades amigas dos animais, com posicionamentos próximos do seu próprio estilo de vida?…

Parece-me impossível criticar uma empresa que decida que a sua estratégia é atacar um nicho de mercado. É legítimo que o façam, que encontrem o seu factor de diferenciação e aquilo que, em marketing e gestão chamamos o seu factor crítico de sucesso. Por isso não concordo nem discordo. Apenas não frequento nem tenciono frequentar.

Mas, como mãe e profissional do marketing, posso partilhar convosco aquela que seria a minha estratégia? (Prometo, senhores empresários, que não cobro direitos de autor se copiarem as ideias 😊!)

Se fosse directora de uma unidade hoteleira, o meu caminho seria o da defesa de um conceito mais emocional. Onde todos seriam bem-vindos, à boa maneira portuguesa.

  1. Defenderia um espaço hoteleiro onde adultos pudessem ter verdadeiros momentos de descontração, porque, em paralelo as suas crianças estariam ocupadas com actividades organizadas e pensadas para “libertar” pais e mães.
    Ao invés de anunciar (pasmei com isto que fui ler ao site do Hotel Bela Vista de Portimão) que “são “bem-vindas” pessoas a partir dos 12 anos”*, eu anunciaria que todos são bem-vindos e que a minha unidade hoteleira dispõe de um programa de ocupação de tempos livres fabuloso (ideal para crianças irrequietas e pais exaustos) e de inúmeras outras actividades adultas para se fazerem individualmente ou a dois.
    Com a natalidade a aumentar, as famílias são cada vez menos um nicho. São uma fonte de rendimento real.
  2. Assim como os animais. Ao lado do meu hotel, construiria um pequeno hotel para cães e gatos que me iria garantir um rendimento extra e diminuir o risco de abandono animal. Anunciada a estratégia online, seria garantida a disseminação da informação na internet pelos defensores da causa animal (que são tantos!). Publicidade gratuita e positiva.

Gostamos das pessoas”. Venha ficar connosco e traga a sua família (pets inclusivamente), parece-me uma excelente forma de um hotel comunicar os seus serviços, fazendo bandeira de valores verdadeiramente diferenciadores e tão tipicamente nossos.

E vocês? Qual a vossa opinião?

*Caro Director de Marketing do Hotel Bela Vista de Portimão: as crianças com menos de 12 anos também são pessoas e as com mais de 12 também são crianças. Just saying…

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Liliana Cachim

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