Há 19 anos…

Em Junho de 1997 estava a entrar no último trimestre da minha primeira gravidez. Tinha apenas 23 anos e uma bebé maravilhosa a crescer na barriga. Estava feliz…aos 23 anos era uma grávida linda e apaixonada pelo futuro. Quando o resultado das análises chegou, parte dessa felicidade transformou-se em medo. Eu estava infectada com toxoplasmose.
Na altura, o acesso à informação não era como hoje em dia. Eu sabia que não era imune. Tive imensos cuidados com a alimentação, a conselho do meu
Obstetra. Fui ao exagero de não comer saladas, porque não confiava nem nas lá de casa, que o meu pai protege com uma rede de pesca. Fruta sempre bem lavada e sobretudo cozida ou assada (amo maçã e pêra cozidas). E carnes só muito bem cozinhadas.
Achava que jamais iria ser infectada. Cuidei de tudo. Menos de um (enorme) pormenor. Não mudei de atitude em relação à minha gata. Eu e a Naomi éramos as melhores amigas, era impossível não a encher de beijos, não dormir com ela. Sempre fui eu quem limpou a caixa de areia e nada disso mudou na gravidez.
Mas eu contraí toxoplasmose. Com 23 anos. Grávida. E entrei em pânico.

( parênteses técnico com informação retirada de http://www.tuasaude.com:
“Durante o primeiros trimestre da gestação, o risco de o bebé ser infectado é menor do que se a infecção acontecer no último semestre, mas os riscos de lesões são maiores no início da gestação.
Antes do nascimento, os riscos são:
* Aborto espontâneo;
* Parto prematuro;
* Malformações do feto;
* Baixo peso ao nascer;
* Morte ao nascer.
Após o nascimento, os riscos para o bebé com toxoplasmose são:
* Alterações no tamanho da cabeça do bebé;
* Estrabismo;
* Inflamação dos olhos, podendo evoluir para a cegueira;
* Icterícia intensa;
* Aumento do fígado;
* Pneumonia;
* Anemia;
* Inflamação do coração;
* Convulsões;
* Surdez;
* Problemas mentais.
A toxoplasmose também pode não ser detectada no momento do nascimento, podendo manifestar-se meses ou até anos depois”.)

Depois de saber da infecção, condenei a minha falta de cuidados. Martirizei-me. Hoje, à distância de 19 anos, continuo a condenar-me. Fui irresponsável. Achei que só “acontece aos outros”. Facilitei. Chorei tanto mas tanto que, dos últimos meses de gravidez, só me lembro de chorar.

A minha mãe, assim que soube do resultado da minha análise e por descargo de consciência, levou a gata ao veterinário. Que não podia ser a gatinha, coitadinha, que ainda no mês anterior tinha ido à vacina e estava de perfeita saúde. Analisadas as fezes e o sangue da bichinha, confirmou-se o pior. Presença de toxoplasma gongii.

Eu em 1995, com a Naomi.
Eu em 1995, com a Naomi.

Essa informação foi preciosa para o meu médico que afirmou que a minha infecção seria, portanto, recente (os gatos sofrem da doença cerca de 3 semanas) e me medicou com antibiótico, na esperança de que tudo corresse pelo melhor para a bebé.

A Lia nasceu no dia 12 de Agosto. Linda, 3.300 kgs de perfeição. Mas o sangue do cordão umbilical indicava que a bebé tinha sido infectada com a doença. No meio da felicidade, eu chorava ainda mais. Um baby blues terrível. Uma sensação de pena de mim mesma e de culpa avassaladoras.

A bebé foi submetida a exames e mais exames. Tudo aparentemente bem. Um ano de consultas externas… Exames e mais exames durante uns longos 12 meses. O Hospital de Aveiro a funcionar na perfeição. Eu a chorar e a aprender a ser mãe. E a crescer muito. A Lia não tinha nada, não sofreu qualquer sequela da infecção. Até que teve alta e foi declarada saudável. E acabaram-se as consultas sobre a toxoplasmose.

Ontem

Ontem, ao percorrer o feed do facebook, congelei ao ler um comentário de uma blogger muito conhecida no norte do país. Grávida de cerca de 30 semanas ela escreveu no seu feed, ilustrado com uma foto da sua barriga e do seu gatinho, algo assim:um minuto de silêncio por todas as mães não-imunes à toxoplasmose que abandonam os seus gatos. Já antes tinha visto que escreve sempre sobre a sua gravidez, a toxoplasmose e o seu gato, como eu teria escrito há 19 anos atrás… Descartando a possibilidade de contágio. Como se tal fosse impossível, quando se têm outros cuidados.

Não é. Não é impossível. Aconteceu comigo.

E comentei. Apelei a uma maior responsabilidade. Quando escrevemos para outras pessoas sobre assuntos tão delicados quanto a gravidez e a saúde temos de o fazer de forma responsável. Contei o meu caso.

Ontem, por causa deste comentário, fui terrivelmente julgada por algumas fundamentalistas dos direitos dos animais. Que os gatos nada têm a ver com a toxoplasmose. Algumas, grávidas, afirmaram que continuam a mudar a areia dos gatos sem maiores cuidados. Uma delas que nem sempre lava as mãos a seguir. Uma, “médica”, a rejeitar a possibilidade de eu ter sido “contaminada” pela minha gata Naomi e a dizer-mo assim, directamente!

Respondi a todas com carinho. A minha história é verdadeira. Aconteceu mesmo. Porque, infelizmente, estas coisas acontecem e não só aos outros.

A blogger é uma querida maravilhosa que entendeu o meu objectivo. Ela tinha apenas a intenção de apelar ao não abandono dos gatinhos. E eu a intenção de explicar que os gatos podem, de facto, ser uma das formas de transmissão da doença (pelas fezes). E as fundamentalistas, o propósito de defender os gatinhos.

(Parênteses técnico com excertos retirados de um texto da Pais e Filhos:

“O gato é importante na transmissão desta doença, porque apesar do toxoplasma poder infectar outros animais, o gato é a única espécie que termina o ciclo de vida do parasita, eliminando-o para o ambiente através das fezes. A toxoplasmose é uma doença auto-limitada. Os gatos infectados expulsam os parasitas apenas durante três semanas, ficando a partir daí imunes e deixando de transmitir a doença. Mas a água, o solo e os vegetais contaminados podem infectar outros animais, como o porco, a vaca ou o carneiro, conduzindo à formação de quistos do parasita nos seus músculos e vísceras. A espécie humana adquire a infecção através da ingestão dos quistos existentes na carne (mal cozinhada) ou através de água ou alimentos vegetais contaminados pelas fezes de gatos infectados. A doença não se transmite de pessoa para pessoa.

Pode ler o texto na íntegra, aqui:
http://www.paisefilhos.pt/index.php/gravidez/gestacao/5784-toxoplasmose-e-gravidez )

Hoje…

Hoje quando acordei ouvi um miar. Era a Kira, que também acordava, ansiosa por uma festa e mais ração.
A Kira é neta da Naomi, que viveu longos anos ao meu lado e filha da Sookie que faleceu o ano passado. Todas minhas gatas, 3 gerações que acompanharam o crescimento da Lia. E que eu jamais abandonaria. ❤️

A Sookie... ❤️
A Sookie… ❤️

PS- Este é um texto de opinião. Em caso de dúvidas sobre o tema siga sempre os conselhos do seu médico.

Liliana Cachim

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