PESSOAS TÓXICAS  – COMO IMPEDIR QUE AFECTEM OS NOSSOS FILHOS

(OU O BULLYING PSICOLÓGICO)

Quando eu era pequena fui vítima de bullying por parte de membros da minha família. Na altura não sabia o que era o bullying, essa palavra nem existia. Sei-o agora. E sei que sobrevivi a esse período para me tornar mais forte.

Esses familiares implicavam constantemente com o facto de eu ser demasiado magra (não era, era perfeitamente normal e saudável). E massacravam-me por isso. Chamavam-me «esparguete», «Olívia Palito». Diziam que tinha pernas de canivete (???) e que devia era ser como a minha prima Sandra (que era gordinha). Obrigavam-me a comer até quase vomitar. Humilhavam-me com “alfinetadas” constantes, desde que chegava até que me ia embora … «Estás aqui? Nem te vi!». Em conversa uns com os outros, comigo presente, referiam-se a mim como «a miúda que parecia de Biafra».

Era o tempo dos “duros”, em que era a vida que nos ensinava a ser fortes, a defender-nos de agressões físicas e verbais – os nossos pais iam trabalhar e deixavam-nos a brincar na rua, manhãs e tardes inteiras, ora a correr por campos e pinhais, ora em casa de uns e de outros vizinhos e familiares. Tempos em que tudo podia acontecer.

E eu odiava as pessoas que me chamavam nomes. Lembro-me da revolta. Lembro-me de tentar respeitar esses adultos tóxicos, só porque a minha mãe e o meu pai me ensinaram a respeitar os mais velhos. Quando, na verdade, o que eu queria mesmo era mandá-los à fava ou pentear macacos na China e pedir-lhes que me deixassem em paz.

Nunca me queixei ao meu pai. Geria sempre essa revolta sozinha. E, nas minhas batalhas mentais contra os tóxicos, era eu quem ganhava sempre.

E ganhei. Tive sorte. Sou forte psicologicamente. Cresci para ser uma boa mulher, mais ou menos magra (dependendo de há quanto tempo tive bebés), inteligente (o suficiente para ter sido a melhor do meu curso na Universidade… ok, eu e a Silvina, grrrr… J) e bem sucedida profissionalmente. Sem problemas psicológicos (graves …hehehe), apenas com umas cicatrizes e amolgadelas…

Mas… nem toda a gente sobrevive intacto, nem todas as crianças lidam com o bullying da mesma forma, como se sabe…

QUEM SÃO OS TÓXICOS?

São pessoas que passam a vida a alfinetar. A injectar veneno. A destilar mau estar. Que põem ao serviço de todos, as suas próprias frustrações, partilhando-as. O objectivo é deixarem de se sentir mal sozinhas e que, por isso, fazem questão de fazer com que os outros se sintam mal.

Pessoas cujo comportamento negativo pode afectar emocionalmente o outro. Contaminar a sua felicidade, a forma como se vêem e também afectar a sua auto-estima.

Podemos ser nós próprios (há tantos pais tóxicos…), um educador ou professor, um familiar, um pai de um amiguinho…

 

OS SINAIS DE ALERTA

Pessoas tóxicas existem de verdade e podem afectar a vida dos nossos filhos.

As crianças possuem uma imagem bonita de si mesmas, pura, singela. Quando rodeadas pelos «tóxicos» podem começar a ver-se como são descritas, a fazer suas as palavras azedas dos outros… a alterar a visão positiva que têm de si próprias e do mundo que as rodeia. E isso, em última instância, pode alterá-los para sempre.

Normalmente, quando existem situações de bullying psicológico, as crianças mostram sinais de alerta:

– Andam mais preocupadas ou rabugentas ou fazem mais birras

– Falam mal de si próprias ou dos outros

– Demonstram maior agressividade

– Não gostam do convívio com a tal pessoa «tóxica» (ou evitam-no, começando por exemplo, a fingir dores de barriga e outras doenças)

– Deixam de mostrar interesse por actividades de que normalmente gostavam

– Começam a tratar mal as pessoas mais frágeis (colegas, irmãos mais novos… por exemplo)

COMO DETECTAMOS ESTAS SITUAÇÕES?

1º Identificando a pessoa «tóxica»

Numa conversa com a criança, tentar perceber o que está a acontecer, através de algumas perguntas:

– Com quem gostas mais de estar? Com quem gostas menos de estar?

– Como te sentes quando estás com essa pessoa?

– O que é que achas que essa pessoa pensa de ti?

– E o que pensa ela dos outros meninos? Age igual com todos?

2º Tentando perceber se as atitudes, supostamente negativas, verdadeiramente prejudicam a criança

Por vezes o nosso instinto de protecção pode condicionar-nos o julgamento. Quantas e quantas vezes somos nós próprios a implicar com alguém por acharmos que implica com os nossos filhos.

Existem crianças que sobrevivem à toxicidade sem ajuda. Crianças de personalidade forte que entendem que o amor e o respeito próprios devem sempre superar a opinião que os outros têm de si.

Cada caso é um caso e devemos analisar a situação, da seguinte forma:

– Está o meu filho numa situação em que é diminuído, humilhado?

– Está a ser excluído de actividades, a perder oportunidades quando está no mesmo contexto que outras crianças?

– A pessoa em questão trata, de facto, a criança de forma diferente?

– Quando conversa connosco tenta convencer-nos de que há algo errado com a criança? Rotula-o negativamente? Associa-o a alguma patologia*?

(*já tive uma situação que um educador sugeriu que o meu filho tomasse Ritalina… óbvio que se arrependeu por se ter aventurado em territórios médicos, ainda por cima de forma infundada…).

E SOBRETUDO…

– Confia no teu filho e nos teus instintos. Tu conheces o teu filho o suficiente para perceber que há algo a mudá-lo, a influenciá-lo negativamente.

COMO AJUDAR A DESCONTAMINAR AS NOSSAS CRIANÇAS?

Defendendo a sua individualidade acima de todas as coisas. E perante todos.

Sim, devemos manter-nos em concordância com os adultos que nos ajudam a educá-los, mas perante evidências de bullying psicológico, é do lado das crianças que devemos ficar. SEMPRE E INCONDICIONALMENTE.

Ou seja, temos de falar por eles. Defender a sua posição, o seu direito a um tratamento digno e correcto.

Na verdade, não podemos impedir que ao longo da vida estas situações aconteçam. Elas vão acontecer. O que temos de fazer é ajudá-los, numa primeira fase actuando por eles, mas depois ajudando-os a reconhecer que há pessoas más, pessoas que não nos fazem bem, que nos sugam energia, que se alimentam do melhor de nós para superar as suas próprias frustrações. Isso consegue-se trabalhando a auto-confiança nas crianças, a sua independência emocional.

Ensiná-los a respeitar os adultos e as outras crianças mas a manter sempre o seu amor próprio, de modo a que, quando alguém os magoar, eles saibam reconhecer que isso é errado. Que são os outros que estão a agir mal.

Proteger sempre os nossos filhos.
Proteger sempre os nossos filhos.

Liliana Cachim

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