A Fada dos Dentes e eu.image

Uma história verídica.

Quando eu era pequenina não existia a Fada dos Dentes. Ou melhor… Ela existia. Só que os meus pais não tinham internet (sim, a internet é que não existia) e nunca ninguém lhes tinha contado a história dessa Fada.
Isto é, portanto, uma história que começa há muitos, muitos anos. No tempo em que não havia telemóveis, nem internet, nem tablets… Nessa altura, em que o que existia eram histórias contadas ou lidas em livros, telefone fixo e televisão a preto e branco, as Fadas dos Dentes (que são coloridas e se movem em fibra óptica) não eram muito famosas.
Mas os dentes dos meninos dessa época longínqua também abanavam e caiam. (Sim, sim, no século passado também havia meninos com dentes a abanar… Podem tirar essa carinha de espanto!)
E os meus caiam muito. Começaram primeiro os de baixo, da frente. Os incisivos. Abanavam… Abanavammmmm… Até que ficavam presos por um fiozinho de pele… E, num belo dia, caiam!

imageE seguiam-se-lhes todos os outros.
Ah… Mas não pensem que era sempre assim simples: abanar, abanar mais e cair! Porque havia sempre uns bruxos-maus que queriam arrancar os meus dentes. (Ok. Talvez esteja a exagerar. Ás vezes eram apenas a minha avó ou o meu tio!)
Os métodos que propunham eram bastante assustadores. Ora aconselhavam a técnica da linha (que queriam amarrar na base do meu dente moribundo) ora a técnica da linha e da porta (primeiro amarravam a linha ao dente, depois a outra extremidade à porta e de seguida batiam a porta ).
Nessa época do século passado, as crianças corriam livremente pelos campos (porque não tinham tablets) e, confesso que, sempre que me queriam arrancar um dente quem arrancava por ali fora era eu. Corre Liliana, corre!Tudo menos ser torturada por fanáticos com linhas e portas a bater com força.
Muitas vezes o dente caía quando eu estava a dormir e desaparecia. A minha mãe dizia que eu o tinha engolido. E que ia sair no meu cócó. Nunca vi (e procurava)… por isso não acreditava!
Quando conseguia apanhar um dente caído, tinha de o dar à minha avó. Ela, que também nunca deve ter ouvido falar da Fada dos Dentes, guardava os meus dentinhos numa caixinha de ourivesaria, embrulhados em algodão. De vez em quando vestia-se melhor e ia a Ílhavo para mandar fazer uns pendentes em ouro com os meus dentes embutidos.
Depois oferecia-os à minha mãe, madrinha e padrinho. A minha mãe ainda guarda alguns dos meus dentes valiosos e acho que as caixinhas ainda são do tempo da minha avó.
No outro dia pedi-lhe um deles para pôr debaixo da almofada. Na manhã do dia seguinte encontrei o dente no mesmo sítio ao lado de uma moeda de 50 cêntimos.
Pouco depois, já no trabalho, vi que tinha recebido o seguinte e-mail:

“Querida Liliana,
Obrigada pelo teu dentinho mas tendo em conta o seu valor, não o poderei aceitar.
Por isso, ao invés dos habituais 2€ que entrego aos teus filhos ou da nota de 5€ quando não tenho dinheiro trocado, deixo-te esta moedinha como lembrança.
Usa-a ajuizadamente.
Um beijinho.
Fada dos Dentes”

Quem me dera que os meus pais tivessem conhecido a Fada dos Dentes, quando eu era pequenina. Mesmo que ela fosse a preto e branco e analógica.
É que 50 cêntimos são 100$00 e 100$00 dava para uma infância inteira de chicletes Gorila.

❤️

Liliana Cachim

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