PaiO meu Pai não é perfeito. É teimoso como uma mula, acredita a fundo no que acredita, tem sempre um argumento extra de defesa e julga que o comando da televisão é propriedade privada. Por vezes amua quando os netos não o deixam ver um jogo de futebol da terceira divisão finlandesa em diferido na SportTv ou o Preço Certo.

O meu Pai é um dos melhores guardadores de memórias que conheço. Com o bom hábito de as partilhar. Seja em livro (e já vão uns tantos) ou nas redes sociais. Acho notável como é que se consegue lembrar com detalhe de tantas pessoas, lugares e acontecimentos.

O meu Pai já foi político. Mas num dia de sol curou-se.

O meu Pai é do Leixões desde que abriu os olhos, mas também sofre pelo Benfica por culpa do bacalhau com batatas do vizinho.

O meu Pai, aos 81 anos, domina as novas tecnologias. Mas está sempre a desgraçar o portátil e põe-se a jeito para que um dia o João ou a Isabel lhe façam facejacking.

O meu Pai é jornalista. Nunca quis ser outra coisa. E ganhou um lugar entre os melhores. O meu Pai começou a trabalhar com 10 anos e tudo o que conseguiu foi fruto de trabalho dedicado e profissional, nunca colocando em causa o sacrifício pessoal para garantir aos 5 filhos TODAS as condições de bem estar e educação.

O meu Pai esteve para nunca o ser porque nasceu prematuro e porque se agarrou à vida numa “incubadora” movida a algodão em rama e botijas de água quente.

O meu Pai é Amigo dos seus amigos, sem pedir nada em troca. Muitas vezes foi alvo de ingratidão (o termo é meigo), mas perdoa sempre. O meu Pai é honesto. E daqui a uns valentes anos vai deixar uma fortuna de honestidade como herança aos filhos e aos netos. Se me puder deixar também o livro do Henrique Medina, perfeito então.

O meu Pai por vezes escreve sobre a morte que há-de vir. E partilha com o mundo inteiro. E eu não gosto nada que ele escreva sobre isso. O meu Pai por vezes escreve sobre o Amor que sente pela minha Mãe, filhos e netos. E também partilha com o mundo inteiro. Mas eu gosto muito que ele escreva sobre isso.

O meu Pai não é um bom homem. É um Homem Bom. O que é muito diferente. Gostava de ter conhecido os meus avós paternos para receber um pouco mais do meu Pai. Mas tenho a sorte de o ter perto de mim, imperfeito como é, mas Bom como poucos. E feliz, tenho a certeza. A minha Mãe, que nos abraça e protege a todos, nunca admitiria o contrário…

Jorge Queirós (a propósito do Dia do Pai)

 

Liliana Cachim

2 Comments on O meu pai – Por Jorge Queirós

  1. Filipa Ribeiro
    Março 15, 2016 at 10:24 pm (2 anos ago)

    Perfeito!!!!
    Adorei cada frase, cada palavra, cada sentimento……….
    Adoro os teus textos e já adoro o teu Pai sem o conhecer.
    Parabéns aos teus avós paternos por terem colocado ao mundo este homem bom.
    Parabéns ao teu pai por estares tu neste mundo que tambem és um homem bom. Rabugento e às vezes chato mas sincero e um homem bom.
    Saudades tenho eu do meu Pai, também ele um homem bom, mas que partiu cedo demais e deixou-me aos 15 anos…….

    Obrigada pela tua escrita
    Bjo grande

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